Portugal depois de anoitecer: o mundo oculto das borboletas-noturnas

Quando a noite cai em Portugal, a polinização continua. As abelhas e a maioria das borboletas recolhem-se durante a noite, mas as borboletas-noturnas assumem parte do trabalho, transportando pólen por jardins, dunas e bosques enquanto nós estamos em casa.
As borboletas-noturnas são monitorizadas no centro de estudos de campo Cruzinha, da A Rocha, no Algarve ocidental, desde 1991, e já ali foram registadas mais de 600 espécies. A investigação realizada no mesmo local dá-nos alguma ideia do que fazem realmente depois de anoitecer.
Num estudo, os cientistas recolheram 257 borboletas-noturnas de 95 espécies e encontraram pólen em 196 delas, ou seja, 76%, que, no seu conjunto, transportavam mais de 9000 grãos. Isto equivale a três em cada quatro borboletas-noturnas. O pólen provinha de pelo menos 26 famílias de plantas, o que sugere que visitam uma grande diversidade de flores, em vez de apenas algumas das suas preferidas.
Tendem a visitar flores claras ou de aroma intenso, mais fáceis de encontrar com pouca luz, e o pólen fica agarrado aos seus corpos enquanto se alimentam, acompanhando-as até à flor seguinte.
Um novo nome na lista portuguesa
Uma borboleta-noturna acaba de chamar novamente a atenção para este mundo oculto.
Em agosto de 2026, os entomólogos Eduardo Marabuto e Albano Soares publicaram na revista Zoodiversity os primeiros registos confirmados em Portugal da esfinge-do-loendro, Daphnis nerii. É uma grande espécie mediterrânica, com uma envergadura entre 9 e 13 cm, verde-azeitona e com marcas cor-de-rosa e brancas.
Descrevem cinco observações em Portugal entre 2014 e 2024, incluindo um registo no Montijo, em 2018, que demonstrou que a espécie se tinha reproduzido localmente. Isso ainda não significa que se tenha estabelecido por cá.
A esfinge-do-loendro é uma forte migradora, capaz de chegar à Europa vinda de regiões mais quentes, pelo que os investigadores sublinham que são necessárias mais observações antes de se poder considerá-la residente. Ainda assim, a sua chegada levanta questões que vale a pena colocar. As condições mais quentes poderão estar a facilitar a chegada à Europa ocidental, e o aumento do número de pessoas a observar a natureza com melhores máquinas fotográficas torna mais provável que visitantes invulgares sejam encontrados e comunicados.
Veja-as com os seus próprios olhos
É mais fácil observar borboletas-noturnas do que se poderia pensar. Uma luz intensa apontada a um lençol branco depois de anoitecer atrai várias espécies e mantém-nas tempo suficiente para as fotografar e identificar.
Há também opções guiadas, e estão previstas duas: Lagoa terá uma noite de observação de borboletas-noturnas a 18 de setembro de 2026, e o Sagres Birdwatching & Nature Festival terá atividades dedicadas às borboletas-noturnas, em paralelo com o seu programa de aves, de 2 a 5 de outubro. Não é preciso conhecer uma única espécie antes de participar.
As suas fotografias podem contribuir para a investigação, pois plataformas de ciência cidadã como a BioDiversity4All recebem observações acompanhadas de uma data e localização e ajudam os investigadores a compreender melhor onde ocorrem as espécies.
Os jardins também ajudam. As plantas com flor fornecem alimento, e desligar a iluminação exterior desnecessária dá às borboletas-noturnas mais hipóteses de chegarem a essas flores, em vez de passarem toda a noite a voar à volta de um candeeiro.
Saia depois do pôr do sol e olhe para a parede junto a uma luz exterior. Há mais a acontecer em Portugal depois de anoitecer do que aquilo que habitualmente vemos.