Um coletivo de mulheres ensina construção em terra no Alentejo

O Women's Natural Building Collective tem as suas raízes no Alentejo e é dirigido por um núcleo de construtoras naturais experientes: Lola Byron, Adi Urbach e Melodie Correia. Organizam workshops para as pessoas aprenderem a construir casas ecológicas com materiais naturais locais, como terra, palha e madeira. A aventura conjunta começou quando a Lola aceitou um trabalho para construir uma casa em fardos de palha e a Adi também estava no local. Pensaram em abrir a obra a outras pessoas, num dia de construção, para avançar com o trabalho, e acabou por acontecer que só apareciam mulheres. "Foi assim que o coletivo começou", diz a Lola. Trabalharam ainda noutros projetos em conjunto, onde vinham sobretudo mulheres e crianças, e descobriram que havia algo inegavelmente mágico na forma como trabalham e comunicam quando estão só mulheres. Isto não quer dizer que trabalhem apenas com mulheres. Só dois workshops por ano são exclusivos para mulheres; os restantes são abertos a todos. Quando lhe perguntam que tipo de pessoas participam nos workshops, a Lola responde: "É uma grande mistura, de todas as idades e, o que acho verdadeiramente belo, dos mais variados percursos de vida. Acho que a magia acontece quando toda a gente se junta, seja qual for a sua origem, o peso que carrega, o caminho que percorreu. Todos são bem-vindos." A Adi acrescenta: "Não temos de todo um estereótipo. E o mais espantoso é que, assim que saltamos para o barro, as pessoas ligam-se de imediato. Lembram-se. Há algo na experiência somática de saltar para dentro e sentir a terra. Há algo que vemos sempre: o brilho no olhar." Quando a Lola dá a parte teórica sobre o design de casas ecológicas, as considerações a ter e quais são os conceitos, muita gente pergunta, conta a Adi: "Porque é que não construímos todas as casas assim?" A paixão da Lola pela construção natural começou na Tailândia, para onde foi depois de concluir a licenciatura em escultura e um mestrado em educação, ao aperceber-se de que não se enquadrava na caixa social do Reino Unido. Diz a Lola: "Não esperava ficar nove anos, mas a forma como constroem lá é simplesmente incrível. Há tanta liberdade, porque toda a gente precisa de um abrigo, e todos temos o direito de construir algo para abrigar o nosso corpo." A Lola continua: "Havia esta possibilidade de brincar e, com isso, veio também uma enorme responsabilidade. Porque, se não há regulamentação, sou eu a responsável por garantir que o edifício é seguro e sólido, que dura e que não magoa ninguém." A principal reação de quem participa é que construir desta forma passa a parecer senso comum. Diz a Adi: "Porque, se todas estas pessoas, de todos estes lugares, com todas estas idades e diferenças culturais, concordam que isto faz sentido, então é muito provável que possa ser o nosso futuro."
Uma casa de terra pode viver em qualquer lugar, se for concebida com consciência
Segundo a Lola, tudo começa por mudar os sistemas de crenças que nos limitam. Diz ela: "Cresci numa sociedade ocidental que me dizia que sou mulher e que, por isso, só posso fazer A, B e C. Mas depois experimento e, na verdade, consigo construir um abrigo com as minhas mãos. Isso reflete-se em muitas outras áreas da vida. De que mais serei capaz que nunca julguei possível? É transformador, de certa forma, não é?" Para a Lola e a sua equipa é muito importante questionar as crenças que nos limitam. E construir a própria casa, em conjunto, em comunidade, é muito capacitante e ajuda as pessoas a perceber que conseguem muito mais do que julgam. Importa-lhes também que as pessoas se fortaleçam umas às outras, sem sentir qualquer competição. Quando trabalham com mulheres, ajustam o trabalho aos níveis de energia que as mulheres têm no seu ciclo mensal. Concebem casas e têm alguns modelos definidos. Adaptam também cada projeto às necessidades do terreno e das pessoas. Diz a Adi: "Quando ensinamos a construir, em vez de construirmos apenas nós, estamos na verdade a difundir melhor esta ideia. Por exemplo, em workshops anteriores, além de convidarmos alunos de todo o mundo, convidávamos também a comunidade a juntar-se às sessões. Assim, depois de o curso terminar, podem continuar em comunidade e acabar o edifício." Diz a Lola: "O que procuramos fazer quando concebemos edifícios é compreender realmente a paisagem. Compreendê-la a sério. Não é tirar umas fotografias, mas perceber cada energia que chega àquele local, que o atravessa, cada sombra que se forma, de onde vem o vento, os ângulos do sol, as variações de temperatura. Para que a casa seja concebida como deve ser e à medida do clima, para o lugar exato onde vai viver, com as paredes, o telhado e o chão a responderem todos àquele ambiente." Na opinião delas, falta um design consciente e holístico. Diz a Lola: "Pousamos um edifício em qualquer lado e depois não há relação simbiótica entre onde está e o que é." Para elas é claro que as casas de terra podem existir em qualquer parte do mundo. E, para elas, é importante notar que não tem de ser uma casa de hobbit. Há exemplos muito bonitos de casas com um aspeto verdadeiramente moderno. Tudo é possível quando se aprendem as técnicas de base.



