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Portugal enfrenta uma meta de desperdício alimentar para 2030. Os agregados familiares são o desafio

Novos dados do Eurostat colocam os agregados familiares portugueses no topo da tabela do desperdício alimentar da UE. Uma meta vinculativa da UE para 2030 é a questão mais importante.

9 de outubro de 2026

Portugal enfrenta uma meta de desperdício alimentar para 2030. Os agregados familiares são o desafio

Os agregados familiares portugueses produziram uma quantidade estimada de 105 kg de desperdício alimentar por pessoa em 2024, incluindo partes não comestíveis, como cascas e ossos, segundo dados que o Eurostat, o serviço de estatística da UE, publicou a 29 de setembro. É o valor mais elevado de todos os países da UE que comunicam dados relativos aos agregados familiares, e bem acima da média da UE, de 69 kg. A Itália fica perto, com 103 kg por pessoa.

A palavra “estimado” merece um olhar mais atento. O Eurostat assinala todos os valores portugueses do conjunto de dados como estimativas, e o valor relativo aos agregados familiares quase não se alterou desde 2020, quando era de 107 kg. Comparar países também é difícil, porque Espanha comunica apenas 24 kg com base numa definição diferente, e três países, entre os quais a Alemanha, não constam dos dados de 2024 relativos aos agregados familiares.

Há ainda um prazo legal que Portugal não pode ignorar. Uma alteração de 2025 à legislação da UE sobre resíduos determina que cada país tem de reduzir o desperdício alimentar por pessoa em 30% até ao final de 2030, contando em conjunto lojas, restaurantes e casas. A transformação e o fabrico de alimentos têm uma meta separada, de 10%. O ponto de partida habitual é a média de 2021 a 2023, e as nossas contas a partir dos dados do Eurostat situam a de Portugal em cerca de 141 kg por pessoa, o que significaria uma meta de aproximadamente 99 kg. Os países podem escolher um ano de partida anterior em determinadas condições, pelo que esse número não é definitivo. Em 2024, o valor estimado foi de 144 kg, e as casas representaram a maior parte.

O turismo complica as contas num país como Portugal. Os alimentos que os visitantes desperdiçam em restaurantes e hotéis contam para o total nacional, mas os visitantes não são contabilizados como residentes, pelo que o desperdício é repartido por menos pessoas. A Comissão Europeia tem até 17 de outubro de 2027 para definir uma correção que tenha em conta as variações do turismo. Isso poderá influenciar a forma como o progresso de Portugal é avaliado.

Os leitores podem fazer algo quanto a isto já hoje. A Refood tem 60 centros locais, assegurados por voluntários, que recolhem os alimentos excedentes de comércios locais e os entregam a pessoas necessitadas, e é possível ajudar com apenas duas horas por semana. A Fruta Feia vende cabazes semanais de fruta e legumes que os supermercados recusam por causa do seu aspeto. O Prato Certo, uma campanha da Associação In Loco, disponibiliza um calendário dos produtos da época, uma lista de produtores locais e dicas práticas para comer bem desperdiçando menos.