Saltar para o conteúdo principal
A semana no Pulso · 17–23 de agosto de 2026

Área ardida diminui, mas Portugal ainda não pode baixar a guarda

A área ardida em Portugal é muito inferior à do ano passado, embora as condições meteorológicas favoráveis expliquem grande parte da redução e o risco permaneça elevado até setembro. O pastoreio direcionado oferece uma resposta prática. Noutros pontos do país, disputas sobre águas subterrâneas e erosão costeira levantaram questões sobre o que é ignorado nas decisões públicas, enquanto novos projetos encontraram outras utilizações para pneus usados, cerejas rejeitadas e bens domésticos.

7 edições diárias · 138 histórias · 7 regiões

O que marcou a semana

Portugal continental registou este ano uma área ardida muito menor, mas os números não permitem falar facilmente de vitória. Entre 1 de janeiro e 15 de agosto, os incêndios queimaram 56.586 hectares, menos 74,7% do que no mesmo período de 2025, apesar de o número de ocorrências ter aumentado 14%. Os especialistas atribuem a redução sobretudo a um inverno chuvoso e prolongado. Com vegetação seca, grandes incêndios recentes e um risco que deverá manter-se elevado até setembro, a prevenção continua a ser urgente. Na Serra da Estrela, vedações virtuais estão a orientar o gado para o pastoreio de matos com elevado risco de incêndio. Um fundo de 2,6 milhões de euros apoiará também a conversão de terrenos de matos elegíveis em pastagens geridas. Noutros pontos do país, o debate centra-se em saber se o investimento público enfrenta as pressões subjacentes. A ZERO afirma que o plano de resiliência costeira de 1,422 mil milhões de euros privilegia a alimentação artificial de praias, dando pouca atenção aos sedimentos fluviais, dos quais mais de 80% ficam agora retidos pelas barragens. Entretanto, o Norte de Portugal abriu um aviso de 10 milhões de euros para recuperar rios e ribeiras em estado ecológico medíocre ou mau. Em Alcácer do Sal, a Quercus planeia apresentar uma queixa à UE devido à aprovação de um projeto de citrinos com 295 hectares dentro da Natura 2000, apontando riscos para as águas subterrâneas e os habitats. Os projetos circulares apresentaram esta semana os exemplos mais práticos de como tratar os resíduos como materiais. Uma nova unidade em Ourém deverá processar anualmente 120.000 pneus em fim de vida, transformando-os em matérias-primas secundárias para o fabrico de pneus. A Moreno está a converter cerejas do Fundão rejeitadas pelos retalhistas num produto do tipo vinagre. O Banco de Bens da LIPOR segue uma via diferente, mantendo mobiliário, eletrodomésticos e equipamentos utilizáveis em circulação através da reutilização interna ou da doação gratuita a organizações sociais.

As histórias da semana

O risco de incêndio para lá dos números

Uma redução para cerca de um quarto da área ardida traz algum alívio, mas as condições meteorológicas favoráveis explicam grande parte do resultado e a época de incêndios continua. O pastoreio direcionado na Serra da Estrela e um fundo de 2,6 milhões de euros para pastagens mostram como a gestão do território pode reduzir os matos combustíveis.

Área ardida em Portugal reduz-se quatro vezes em 2026

Entre 1 de janeiro e 15 de agosto de 2026, os incêndios rurais consumiram 56.586 hectares em Portugal continental, uma redução de 74,7% face aos 223.189 hectares registados no mesmo período de 2025, apesar de um aumento de 14% no número de ocorrências. Especialistas atribuem a melhoria sobretudo às condições meteorológicas, incluindo um inverno chuvoso e prolongado, e não apenas às políticas de prevenção ou combate. Alertam que a época de incêndios ainda não terminou, referindo os grandes fogos recentes em Vouzela, Valpaços, Guarda, Arouca e Moncorvo, a vegetação seca e o risco de acumulação de combustível ligado ao abandono rural. O primeiro-ministro reconheceu que o risco elevado se mantém até setembro.

Coleiras de pastoreio virtual levam manada de vacas a reduzir risco de incêndio na Serra da Estrela

Uma manada de vacas está a ser utilizada na Serra da Estrela para ajudar a prevenir incêndios, através do pastoreio de vegetação que alimenta os fogos, orientada por um sistema de pastor virtual em vez de vedações ou pastores tradicionais. A tecnologia direciona a movimentação dos animais pelo terreno, permitindo um pastoreio direcionado do mato em zonas de maior risco de incêndio. A iniciativa reflete uma tendência mais ampla de usar o pastoreio de gado como ferramenta de gestão do território para reduzir a biomassa combustível em regiões de montanha propensas a incêndios em Portugal.

IFAP abre concurso de 2,6 milhões de euros para converter matos em pastagens

O Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP) abriu um concurso, financiado pelo Fundo Ambiental, com uma dotação superior a 2,6 milhões de euros para apoiar a conversão de matos em pastagens. O apoio destina-se a parcelas registadas como superfícies com vegetação arbustiva superior a 50 cm sem condições para uso agrícola ou pecuário, visando reduzir a carga de combustível e o risco de incêndios através da valorização do pastoreio extensivo tradicional. O financiamento é atribuído por hectare e não pode acumular com outros apoios públicos para os mesmos custos. As candidaturas, abertas desde quarta-feira no portal do IFAP, dão aos beneficiários 18 meses para executar a conversão, e o concurso encerra quando a dotação se esgotar.

Planos para a água sob escrutínio

De um projeto de citrinos contestado em Alcácer do Sal às críticas ao investimento na costa, as decisões sobre a água estão sob escrutínio devido aos aquíferos, aos habitats e à falta de sedimentos. Um aviso de 10 milhões de euros para recuperar rios no Norte mostra também como o financiamento público está a ser canalizado para a recuperação ecológica.

Quercus vai apresentar queixa à UE contra projeto de citrinos em Alcácer do Sal

A associação ambientalista Quercus vai apresentar uma queixa formal à Comissão Europeia contra a aprovação de um projeto de produção intensiva de citrinos em Alcácer do Sal, que abrange 295 hectares integrados na Rede Natura 2000. A Declaração de Impacte Ambiental, emitida a 3 de agosto, foi aprovada apesar de 99,2% dos participantes na consulta pública se terem manifestado contra. A Quercus alerta que o projeto, que prevê 12 furos profundos para captar 1,74 hectómetros cúbicos de água por ano, ameaça um aquífero já sob pressão e coloca em risco habitats protegidos e espécies raras junto ao estuário do Sado. A associação admite ainda recorrer aos tribunais para suspender a decisão.

ZERO diz que plano do litoral ignora défice de sedimentos dos rios

A associação ambientalista ZERO critica o Programa de Ação para a Resiliência do Litoral 2040 (PARL 2040), que prevê um investimento de 1422 milhões de euros, por não enfrentar uma das principais causas da erosão costeira: a redução do transporte de sedimentos dos rios para o mar. A análise da ZERO às 1.063 medidas do programa identifica apenas seis estudos sobre bacias hidrográficas, equivalentes a 0,16% do investimento, contra cerca de 346 milhões de euros para alimentação artificial de praias. As barragens portuguesas retêm já mais de 80% do volume de areia que os rios transportavam antes da sua construção. A associação aponta ainda a ausência de uma abordagem transfronteiriça com Espanha e pede planos específicos de sedimentos e medidas de continuidade fluvial.

Norte de Portugal recebe 10 milhões de euros para recuperar rios

O programa regional NORTE 2030 abriu um aviso de candidaturas no valor de 10 milhões de euros, financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, para apoiar a recuperação ecológica de rios e ribeiras na Região Norte. O financiamento destina-se a massas de água classificadas com estado ecológico inferior a bom, identificadas em colaboração com a Agência Portuguesa do Ambiente e alinhadas com os planos de gestão hidrográfica da região. Estão previstas intervenções em vários municípios, incluindo a renaturalização e reabilitação de troços dos rios Ave, Vizela, Selho, Leça e Lamas, e o desentubamento de uma linha de água no Bairro de Pinheiro Torres, no Porto. As candidaturas podem ser submetidas através do Balcão dos Fundos até 30 de dezembro de 2026.

Os resíduos ganham outra utilização

Pneus em Ourém, cerejas do Fundão rejeitadas e bens domésticos utilizáveis são mantidos em circulação através de três projetos distintos. Em conjunto, tornam concreto o aproveitamento dos recursos: recuperar materiais industriais, dar outro uso a alimentos e doar equipamentos antes de se tornarem resíduos.

Nova unidade em Ourém vai reciclar 120 mil pneus por ano

A BB&G instalou uma unidade de reciclagem de pneus em Vilar dos Prazeres, Ourém, após um investimento de cerca de um milhão de euros no último ano. A unidade, que entra em funcionamento este mês, vai recuperar 1.500 toneladas de granulado por ano, o equivalente a 120 mil pneus em fim de vida, convertendo-o em matérias-primas secundárias que podem ser reintroduzidas no fabrico de novos pneus. A empresa apresenta o projeto como o primeiro de economia circular no sector dos pneus em Portugal, baseado em tecnologia proprietária. A BB&G tem como parceira tecnológica a BDI-BioEnergy International e um acordo de colaboração com a Bridgestone EMEA e a Versalis (ENI) para validar a qualidade dos materiais.

Moreno transforma cerejas do Fundão rejeitadas em vinagre balsâmico

A Moreno, marca da Casa Mendes Gonçalves, criou um novo produto balsâmico a partir de cerejas do Fundão que não cumprem os critérios comerciais e que, por isso, não chegariam às lojas. Em vez de serem desperdiçadas, estas cerejas são agora aproveitadas para dar origem a um produto do tipo vinagre balsâmico, prolongando a sua utilidade e reduzindo o desperdício alimentar. A iniciativa insere-se numa tendência mais ampla da indústria alimentar de valorizar produtos que não cumprem critérios estéticos ou de tamanho exigidos para venda ao público.

LIPOR lança Banco de Bens para reutilizar e doar objetos

A LIPOR criou o Banco de Bens, uma iniciativa que visa prolongar a vida útil de mobiliário, equipamentos elétricos e eletrónicos e outros bens em bom estado que, de outra forma, seriam descartados. O projeto permite a reutilização interna dos bens na própria LIPOR, bem como a sua doação gratuita a instituições de solidariedade social, ONG e outras organizações com necessidades identificadas. Integra-se no modelo circular de gestão de resíduos da LIPOR, com o objetivo de reduzir o desperdício de recursos e apoiar uma economia mais circular e de baixo carbono. Para dar visibilidade à iniciativa, a LIPOR lançou a campanha "Ainda tenho muito para dar", em que os próprios objetos ganham voz para destacar o que ainda podem oferecer.

O mapa continua a preencher-se. Esta semana acrescentámos 17 projetos e 36 eventos. A Sustainable Living liga agora 358 projetos, 195 eventos próximos e 742 pessoas em Portugal.

Novos projetos esta semana

Na nossa agenda

Sete dias no Pulso

Saiba quando algo cresce

Novos projetos, vagas e histórias — uma carta curta, apenas quando há algo que vale a pena partilhar.

Que cartas quer receber?