Saltar para o conteúdo principal
A semana no Pulso · 28 de setembro – 4 de outubro de 2026

Conseguirão as soluções práticas acompanhar as pressões sobre a água em Portugal?

O estado dos rios e aquíferos portugueses continua a piorar, e o Tagus ainda registou dias sem caudal, apesar de um compromisso transfronteiriço. Esta semana trouxe também respostas práticas: financiamento para reutilizar águas residuais, experiências locais de recuperação de habitats, formação em reparação e o alargamento da recolha de resíduos alimentares. O desafio é articular estes passos úteis com planos financiados, caudais diários fiáveis e provas de que os ecossistemas estão efetivamente a recuperar.

7 edições diárias · 191 histórias · 7 regiões

O que marcou a semana

O debate sobre a água em Portugal expôs o fosso entre os compromissos assumidos e o estado dos rios. Segundo a ZERO, o estado de rios e aquíferos é mau e continua a piorar, enquanto os projetos de medidas de gestão para 2028 a 2033 não têm financiamento nem execução garantidos. No Tagus, Fratel registou 14 dias abaixo do mínimo diário acordado entre outubro de 2025 e setembro de 2026, cinco dos quais sem qualquer caudal. Um novo concurso de financiamento para instalações de reutilização de águas residuais oferece uma resposta prática, mas destina-se ao abastecimento de água não potável, e não à recuperação dos rios exigida pelos ativistas. Noutros locais, as respostas começaram por uma observação atenta de lugares específicos. Lagoa testou a remoção subaquática de algas invasoras antes de estas chegarem à praia de Carvoeiro. Na baía da Trafaria, nove carrinhos de compras adaptados foram transformados em abrigos monitorizados para cavalos-marinhos, partindo do facto de estes animais usarem carrinhos abandonados. No Funchal, a observação de um estudante de biologia sobre a plantação de espécies invasoras e exóticas levou a um projeto-piloto de jardim com espécies autóctones num conjunto de habitação social. São experiências, não provas de resultados, e cada uma exigirá monitorização ou novas decisões. A política de resíduos mostrou como a regulamentação e os sistemas quotidianos se podem reforçar mutuamente. As grandes empresas têm agora de tentar aplicar descontos, doar ou reparar antes de destruírem roupa não vendida, embora a maioria das 12 000 empresas têxteis portuguesas fique fora do âmbito direto da regra. A Academia REPARA, gratuita, ensinará entre 10 e 20 pessoas em Lisbon a reparar equipamentos elétricos e eletrónicos ao longo de 12 sábados. Entretanto, Maia está a alargar a recolha de resíduos alimentares a mais de 25 000 habitações. A escala varia, mas as três medidas facilitam a reutilização, a reparação ou a separação antes de os materiais se transformarem em resíduos.

As histórias da semana

Planos para a água sob pressão

Os planos de Portugal para a água enfrentam um teste de credibilidade. O estado dos rios e aquíferos continua a piorar, o Tagus ainda regista dias sem caudal e as medidas propostas não têm financiamento garantido. O apoio à reutilização de águas residuais é útil, mas não resolve as questões relativas à proteção e recuperação dos rios.

Zero alerta para degradação dos rios e aquíferos em Portugal

A associação ambientalista Zero alertou, a 27 de setembro, para a deterioração do estado dos rios e aquíferos no território continental português. A avaliação da associação incide sobre os documentos que orientam o 4.º ciclo dos Planos de Gestão de Região Hidrográfica (PGRH), relativos ao período 2028-2033, que estiveram em consulta pública. Segundo a Zero, esses documentos confirmam o mau estado de muitas massas de água, mas as medidas propostas não têm garantias de financiamento nem de execução. A associação aponta o investimento insuficiente como um dos principais obstáculos a inverter esta tendência.

Tejo continua a ter dias de caudal zero dois anos após compromisso

Dois anos depois de Portugal e Espanha terem prometido acabar com os dias de caudal zero no Tejo, dados do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos mostram que o rio continua a falhar esse objetivo. Entre outubro de 2025 e setembro de 2026, o caudal na albufeira do Fratel ficou abaixo do mínimo diário acordado em 14 dias, incluindo 5 dias de caudal nulo, segundo o proTEJO e a ZERO, que consideram o compromisso de 2024 ainda não cumprido. As organizações alertam que os volumes acumulados anuais, trimestrais e semanais escondem dias com o rio praticamente sem água, e criticam a nova estratégia nacional para a água, de cerca de 5 mil milhões de euros, por priorizar novas infraestruturas em vez da proteção dos rios.

Portugal 2030 abre concurso para tratamento de águas residuais para reutilização

O programa Sustentável 2030 lançou o Aviso PACS-2026-23, um concurso de apoio a investimentos em estações de tratamento de águas residuais (ETAR) destinados à produção e distribuição de água para reutilização em usos não potáveis. A medida enquadra-se no Ciclo Urbano da Água em alta e pretende promover um modelo de gestão mais circular dos recursos hídricos, com benefícios ambientais e territoriais. Podem candidatar-se municípios e respetivas associações, o setor empresarial do Estado e local, e empresas concessionárias municipais ou intermunicipais. São elegíveis despesas faturadas e pagas desde 31 de março de 2025, com candidaturas a decorrer no Balcão dos Fundos em duas fases, entre setembro de 2026 e setembro de 2027.

Experiências para habitats degradados

Três projetos locais respondem à alteração dos habitats com experiências práticas: aspirar algas invasoras, adaptar carrinhos abandonados para servirem de abrigo a cavalos-marinhos e substituir plantas invasoras e exóticas por espécies autóctones. O seu valor depende agora da monitorização, da aprendizagem e de decisões sobre o seu alargamento.

Lagoa testa aspirador subaquático contra alga invasora

A Câmara Municipal de Lagoa está a realizar um projeto-piloto na praia do Carvoeiro, entre 28 de setembro e 2 de outubro, para testar um sistema que aspira e recolhe a alga invasora Rugulopteryx okamurae diretamente do mar, em vez de a remover apenas depois de acumulada na areia. O Algarve tem sofrido com acumulações crescentes desta alga castanha desde 2022, quando o ciclone extratropical Danielle levou cerca de 440 metros cúbicos a depositar-se na Praia do Carvoeiro. O ensaio surge após a aprovação pelo Governo de um programa nacional de ação para o controlo da espécie entre 2026 e 2030, que prevê monitorização, apoio financeiro a pescadores e aquicultores afetados e investigação sobre o aproveitamento da biomassa recolhida.

Carrinhos de supermercado transformados em abrigos para cavalos-marinhos perto de Lisboa

Nove carrinhos de supermercado, cedidos pelo Lidl Portugal e adaptados por serralheiros locais, foram colocados debaixo de água na baía da Trafaria, em Almada, para servirem de abrigo artificial a cavalos-marinhos. A ideia surgiu depois de investigadores terem observado os animais a refugiarem-se já em carrinhos abandonados no meio do lixo marinho da zona. O projeto, integrado na iniciativa da WWF Portugal e da MARDIVE para o estuário do Tejo, visa uma população descrita como particularmente densa para estas espécies. Não há prazo definido para retirar as estruturas, por se tratar da primeira fase de um plano mais amplo de remoção de resíduos e recuperação do habitat, com mergulhos de monitorização previstos até outubro de 2026.

Madeira substitui plantas invasoras em jardins de bairros sociais por espécies endémicas

A empresa pública de habitação da Madeira, IHM, lançou o projeto "Jardins+Nossos", que pretende substituir por espécies endémicas as plantas maioritariamente invasoras ou exóticas que ocupam os espaços verdes de bairros sociais. A ideia partiu de Júnio Jardim, estudante de biologia de 21 anos que identificou o problema no Bairro da Nazaré, no Funchal, e foi desenvolvida com associações locais, a IHM e o Instituto de Florestas e Conservação da Natureza, que vai fornecer as plantas. O projeto-piloto arranca num jardim do Bairro da Nazaré, entretanto limpo de construções precárias, com plantações marcadas para 15 e 22 de outubro, podendo depois alargar-se a outros bairros, como Romeiras e Nogueira.

Resíduos antes da eliminação

As regras da UE procuram agora afastar as grandes empresas da destruição de roupa não vendida, enquanto os residentes de Lisbon podem aprender a reparar equipamentos eletrónicos e Maia alarga a recolha de resíduos alimentares. Em conjunto, estas medidas combatem os resíduos antes da eliminação, embora o seu alcance varie bastante consoante a dimensão da empresa e o local.

Proibição europeia de destruir roupa não vendida entra em vigor

Desde 19 de julho de 2026, uma norma europeia integrada no Regulamento de Conceção Ecológica para Produtos Sustentáveis proíbe as grandes empresas de destruir vestuário, acessórios e calçado não vendidos; as médias empresas terão de cumprir a partir de 2030, ficando as micro e pequenas isentas. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, entre 4% e 9% dos têxteis colocados no mercado europeu são destruídos antes de serem usados, entre 264 mil e 594 mil toneladas por ano. As empresas têm agora de esgotar alternativas como desconto, doação ou reparação antes de eliminar produtos, e enviar peças novas para reciclagem passa a contar como destruição. A indústria têxtil portuguesa, com cerca de 12 mil empresas e 125 mil trabalhadores, está maioritariamente fora do âmbito direto, mas fornece marcas já obrigadas a cumprir a regra.

Academia REPARA regressa com segunda edição de formação gratuita em Lisboa

O Electrão, a Circular Economy Portugal e o Repair Café Lisboa vão lançar a segunda edição da Academia REPARA, uma formação gratuita que ensina o público em geral a reparar equipamentos elétricos e eletrónicos. Com início em outubro, decorre em 12 sessões de sábado de manhã, nas instalações do Banco de Bens Doados da Entrajuda, com entre 10 e 20 participantes orientados por reparadores experientes do movimento Repair Café. A iniciativa visa capacitar os consumidores para reparar os seus equipamentos, acompanhando o reforço do direito à reparação na União Europeia e contribuindo para prolongar a vida útil dos produtos, reduzindo resíduos e consumo de matérias-primas.

Maia alarga recolha de resíduos alimentares a 25 mil habitações

A Maiambiente vai alargar a recolha seletiva de resíduos alimentares no concelho da Maia a mais de 25 mil habitações, acrescentando recolha porta a porta a mais de 19 mil habitações e instalando 83 novos pontos de contentores na via pública para cerca de 6 300 habitações. Atualmente a recolha abrange cerca de 55% do município, com o objetivo de recuperar 70% do potencial de biorresíduos até 2030. A iniciativa surge num contexto em que, em 2024, foram desperdiçadas em Portugal 1 820 452 toneladas de alimentos. Uma campanha de sensibilização arranca hoje, com ações porta a porta a partir da semana de 12 de outubro.

O mapa continua a preencher-se. Esta semana acrescentámos 21 projetos e 73 eventos. A Sustainable Living liga agora 451 projetos, 180 eventos próximos e 906 pessoas em Portugal.

Novos projetos esta semana

Na nossa agenda

Sete dias no Pulso

Saiba quando algo cresce

Novos projetos, vagas e histórias — uma carta curta, apenas quando há algo que vale a pena partilhar.

Que cartas quer receber?