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A semana no Pulso · 5–11 de outubro de 2026

Pode Portugal gerir a água usada na agricultura sem medições diretas?

A escassez de água e o risco climático marcaram a agenda desta semana. Um documento da European Commission atribui à agricultura 86% do consumo de água em Portugal em 2018, mas as captações agrícolas continuam a ser estimadas, em vez de medidas diretamente. O financiamento para a reutilização de água e os planos para reduzir as fugas nas redes oferecem respostas práticas. Noutros pontos do país, os municípios reforçaram as regras relativas a inundações, mapearam refúgios climáticos e prepararam-se para fenómenos meteorológicos extremos, enquanto os projetos ecológicos se concentraram na proteção e no restauro.

7 edições diárias · 214 histórias · 7 regiões

O que marcou a semana

O debate sobre a água em Portugal começa com um número expressivo, mas desatualizado. Um documento da European Commission indica que a agricultura representou 86% do consumo em 2018, enquanto Portugal continua a estimar as captações agrícolas, em vez de as medir diretamente. A pressão varia muito entre regiões, com o stresse hídrico no verão a atingir 91% na bacia do Guadiana. Duas respostas são práticas: um concurso de 30 milhões de euros financiará sistemas de reutilização de água, enquanto a Águas do Alto Alentejo pretende poupar 9,6 milhões de metros cúbicos ao longo de oito anos. A preparação local para os riscos climáticos assume diferentes formas e os progressos são desiguais. Monção passou a proibir caves e quartos abaixo da cota de inundação definida em novos edifícios situados em zonas de risco. Leiria está a elaborar um plano de contingência para inundações, tempestades e falhas no fornecimento de energia e nas comunicações. Lisbon identificou dezenas de possíveis refúgios climáticos, mas a rede aprovada em 2022 ainda não se concretizou. Os investigadores afirmam que a sombra, a ventilação e a redução do número de automóveis são mais importantes do que simples relvados ou pavimentos claros. O trabalho ecológico abrangeu desde indícios dos efeitos da proteção até à preparação do restauro. Os mergulhadores encontraram mais espécies de peixes e um fundo marinho mais equilibrado dentro da reserva do Garajau, na Madeira, onde a pesca é proibida, do que num local próximo sem proteção, embora a expedição prossiga. Em terra, um olival abandonado na Arrábida está a ser transformado numa agrofloresta. Em São Miguel, um pomar experimental reúne 2 168 árvores autóctones para fornecer sementes e plantas destinadas ao restauro florestal quando a recolha em meio natural é difícil.

As histórias da semana

As contas da água

O desafio da água em Portugal é simultaneamente físico e informativo. A agricultura domina o consumo estimado, enquanto o stresse hídrico atinge o ponto máximo no Guadiana. O financiamento para a reutilização de água e um contrato de redução de perdas no Alto Alentejo mostram duas formas de usar com mais cuidado os recursos existentes.

Relatório da UE indica que agricultura consome 86% da água em Portugal

Um documento da Comissão Europeia sobre a gestão da água em Portugal, com base em dados de 2018, revela que a agricultura representa 86% do consumo de água, muito à frente do abastecimento público (10,4%) e da indústria (3,6%). O setor é responsável por 69% da pressão sobre as águas subterrâneas, e a poluição associada à atividade agrícola afeta 36% das massas de água superficiais. Portugal continua a recorrer a estimativas, em vez de medições diretas, para apurar as captações agrícolas. A Comissão aponta ainda fortes disparidades regionais, com o stress hídrico a atingir 91% na bacia do Guadiana no verão, e recomenda rever a tarifação da água, uma vez que a agricultura paga uma taxa muito inferior à do abastecimento público.

Portugal abre aviso de 30 milhões de euros para reutilização de águas residuais

O programa Sustentável 2030 abriu um aviso de 30 milhões de euros para apoiar a adaptação de Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) à produção e distribuição de água para reutilização em usos não potáveis. O Aviso PACS-2026-23 visa promover a circularidade dos recursos hídricos e reforçar a resposta à escassez de água. Podem candidatar-se municípios e respetivas associações, entidades dos setores empresariais do Estado e Local e empresas concessionárias municipais ou intermunicipais, através do Balcão dos Fundos. O concurso decorre em regime contínuo, dividido em duas fases até setembro de 2027, com uma taxa máxima de cofinanciamento de 85%, abrangendo as regiões NUTS II de Portugal Continental.

Águas do Alto Alentejo quer poupar 9,6 milhões de metros cúbicos de água

A Águas do Alto Alentejo, em parceria com a INDAQUA, pretende reduzir em 9,6 milhões de metros cúbicos as perdas de água na rede ao longo de oito anos, com uma poupança média anual de 1,2 milhões de metros cúbicos. O projeto abrange mais de 1.104 quilómetros de rede em dez concelhos, incluindo deteção e reparação de fugas, gestão de pressões e reabilitação de infraestruturas. A empresa afirma ser a primeira em Portugal a aplicar o conceito de Benefícios Volumétricos da Água, permitindo converter a poupança em créditos hídricos, estimados em 0,78 euros por metro cúbico, transacionáveis na plataforma Aquapositive. Os resultados serão avaliados anualmente, podendo o contrato ser prolongado entre 10 e 15 anos.

Planear para situações extremas

O planeamento climático municipal está a tornar-se mais específico. Monção integrou as cotas de inundação nas regras de construção e Leiria está a preparar-se para condições meteorológicas severas e perturbações nos serviços. A lista de refúgios climáticos de Lisbon mostra que identificar locais mais seguros não é o mesmo que criar uma rede funcional.

Monção proíbe caves e quartos abaixo da cota de cheia nas novas regras urbanísticas

O Plano Diretor Municipal (PDM) de Monção passa a incorporar normas do Plano de Gestão dos Riscos de Inundações (PGRI) da região hidrográfica Minho-Lima, publicadas em Diário da República. Em zonas identificadas como de risco, as novas construções deixam de poder ter caves ou quartos de dormir abaixo da cota de cheia definida para o local, e nas áreas de perigosidade muito alta ou alta fica proibida, em qualquer circunstância, a existência de habitações abaixo dessa cota. Os edifícios devem resistir aos danos de inundação e usar materiais capazes de suportar o contacto prolongado com a água. Em caso de catástrofe, a reconstrução é limitada, privilegiando-se a relocalização fora da zona de risco e a renaturalização dos cursos de água.

Lisboa já identifica refúgios climáticos, mas continua sem plano completo contra o calor

A Câmara de Lisboa divulgou uma lista de dezenas de jardins, bibliotecas, museus e teatros como refúgios climáticos para as ondas de calor, embora alguns parques fechem em determinados dias. Os investigadores defendem que a sombra, a ventilação e menos automóveis são o que mais conta, e que relvados sem árvores e pavimentos claros pouco arrefecem. Lisboa é a sétima cidade europeia mais exposta ao calor, mas a rede de refúgios recomendada em 2022 não saiu do papel. Os projetos municipais, como árvores nas ruas e bebedouros, continuam pequenos e quase sempre financiados pela Europa, segundo as críticas.

Leiria prepara plano municipal para responder a fenómenos meteorológicos extremos

A Câmara de Leiria está a elaborar um Plano Municipal de Contingência que reúne medidas preventivas para situações meteorológicas adversas, com o objetivo de permitir uma resposta eficaz quando estas ocorrerem. O documento abrange três áreas de risco: precipitação e cheias, vento e tempestades, e falhas de energia e comunicações.

Recuperar sistemas vivos

A proteção, a plantação e o fornecimento de sementes ligam estes projetos. A reserva do Garajau revelou uma vida marinha mais rica do que um local próximo sem proteção. O olival abandonado da Arrábida e o pomar de árvores autóctones de São Miguel adotam abordagens diferentes para restabelecer as condições de que os ecossistemas necessitam.

Mergulhadores encontram mais vida marinha dentro da reserva do Garajau do que fora dela

Os mergulhadores científicos da expedição Madeira Ocean compararam duas zonas a cerca de um quilómetro de distância, uma dentro da reserva natural do Garajau, onde a pesca é proibida, e outra sem proteção. Nos mergulhos a 10 e a 20 metros, a área protegida revelou muitas espécies de peixe, como peixe-cão, meros, badejos e um ratão, que não apareceram fora dela. O fundo marinho mostrou também maior equilíbrio ecológico, sem uma só espécie a dominar. Os dados vão ser entregues aos decisores políticos. A expedição prolonga-se até ao final do mês e prevê ainda mergulhos no norte da Madeira e no Porto Santo.

Liga de basquetebol transforma olival abandonado em agrofloresta

A Federação Portuguesa de Basquetebol e a Liga Betclic estão a transformar um antigo olival abandonado, com cerca de 2500 metros quadrados na Serra da Arrábida, numa agrofloresta designada Floresta da Liga. O projeto, associado ao programa Sports for Climate Action da ONU, está organizado em 24 núcleos hexagonais de plantação, um por cada equipa das ligas masculina e feminina, com espécies autóctones. Com apoio da Biovilla, pretende melhorar o solo, aumentar a capacidade de retenção de água e o sequestro de carbono, e reduzir a erosão. O espaço, situado numa Reserva da Biosfera da UNESCO, deverá abrir ao público na primavera, com maturação prevista num horizonte de cinco anos.

Açores plantam pomar de sementes com 2.168 árvores nativas em São Miguel

O Governo dos Açores instalou um pomar experimental na Atalhada, no concelho do Nordeste, em São Miguel, para aumentar a produção de sementes e plantas nativas. O espaço reúne 2.168 plantas de três espécies florestais endémicas: azevinho, cedro-do-mato e louro. O objetivo é garantir material vegetal para recuperar ecossistemas florestais, numa altura em que a recolha de sementes em áreas naturais é dificultada por locais inacessíveis, fenómenos meteorológicos extremos e animais que se alimentam de flores e frutos. O secretário regional da Agricultura, António Ventura, visitou o pomar e defendeu o investimento nas espécies endémicas e autóctones.

O mapa continua a preencher-se. Esta semana acrescentámos 17 projetos e 106 eventos. A Sustainable Living liga agora 466 projetos, 199 eventos próximos e 951 pessoas em Portugal.

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