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A semana no Pulso · 12–18 de outubro de 2026

Pode Portugal reparar o que já tem?

Portugal está a enfrentar a manutenção dos sistemas de que já dispõe. As redes de água envelhecidas perdem cerca de 190 milhões de metros cúbicos por ano, enquanto 55% dos resíduos urbanos continuam a ir para aterro. Esta semana trouxe respostas práticas, da reutilização de águas residuais e recolha de resíduos alimentares à conservação de sementes, ao pastoreio gerido e ao trabalho nos solos do Alentejo, a par de questões incisivas sobre o custo ecológico.

7 edições diárias · 274 histórias · 7 regiões

O que marcou a semana

O debate sobre a água em Portugal está a passar da expansão para a manutenção. As tubagens locais são substituídas a um ritmo de 0,5% por ano e perdem-se anualmente cerca de 190 milhões de metros cúbicos de água. Um programa de 30 milhões de euros apoiará a reutilização de águas residuais tratadas na rega, na indústria e nos espaços urbanos. No entanto, as novas infraestruturas de abastecimento continuam a ser contestadas. Quatro organizações afirmam que a barragem proposta para a Foupana prejudicaria os habitats de peixes e do lince e contestam a sua justificação enquanto resposta à seca. Em conjunto, estas histórias mostram que a resiliência implica escolhas sobre reparação, reutilização e custo ecológico. Os resíduos revelam uma discrepância semelhante entre os sistemas e os resultados. Portugal produziu 5,7 milhões de toneladas de resíduos urbanos em 2025, mais 2% num ano; 55% foram para aterro e 14% foram reciclados. Em Moita-Palmela, as inspeções detetaram incumprimentos das condições da licença e das regras aplicáveis aos aterros. Entretanto, a Moita lançou um concurso de 837 345 euros para a recolha porta a porta de resíduos alimentares em cerca de 1550 pontos domésticos e comerciais. É uma resposta concreta dentro do mesmo sistema regional de resíduos que está agora sob escrutínio. Outras respostas adotam uma perspetiva de prazo mais longo. O quinto depósito de Portugal em Svalbard acrescenta 334 acessos de feijão, feijão-frade e milho, elevando a reserva portuguesa no Ártico para 1861. Em Montalegre, um projeto transfronteiriço testará cerca de 100 coleiras com GPS e vedações virtuais para avaliar de que forma o pastoreio de montanha pode gerir a vegetação e reduzir o risco de incêndio rural. No Alentejo, o coverPLUS combina culturas de cobertura, fertilização orgânica e um gémeo digital destinado a prever a produção de forragem. Ambos os projetos de campo decorrem até 2028, enquanto o banco de sementes protege material para necessidades futuras.

As histórias da semana

Reparar, reutilizar ou construir

O desafio da água em Portugal diz agora respeito tanto ao envelhecimento das redes como ao abastecimento. O investimento na renovação de tubagens e na reutilização de águas residuais surge a par de uma barragem contestada no Algarve, onde entram em conflito o planeamento para a seca, a biodiversidade e a confiança na avaliação ambiental.

Setor da água em Portugal passa de construir redes a renovar as que envelhecem

Entidades gestoras e o regulador concordam que a prioridade deixou de ser construir infraestruturas e passou a ser renovar e modernizar as existentes. As condutas são substituídas a um ritmo de apenas 0,5% ao ano nas redes em baixa e 0,2% em alta, e continuam a perder-se cerca de 190 milhões de metros cúbicos de água por ano. As alterações climáticas trazem secas mais longas e chuvas intensas. A APRH, a ERSAR, a INDAQUA, a EPAL e dois operadores locais defendem melhor conhecimento dos ativos, monitorização digital e investimento continuado. Os planos nacionais apontam necessidades superiores a 10 mil milhões de euros.

Portugal destina 30 milhões de euros à reutilização de águas residuais tratadas

Portugal vai investir 30 milhões de euros no tratamento de águas residuais para que possam ser reutilizadas em vez de rejeitadas. A água recuperada destina-se à rega, à indústria e a espaços urbanos, com o objetivo de aliviar a pressão sobre os recursos hídricos existentes.

Quatro associações de ambiente opõem-se à barragem da Foupana por ameaça a peixes e lince

A Almargem, a ZERO, a Quercus e a PPSBAA entregaram pareceres negativos na consulta pública sobre a barragem prevista para a ribeira da Foupana, em Alcoutim e Castro Marim, orçada entre 150 e 200 milhões de euros. Exigem que a Agência Portuguesa do Ambiente emita uma Declaração de Impacte Ambiental desfavorável. Defendem que a obra é uma falsa solução para a seca, ameaça o saramugo a jusante, impede a passagem de peixes migradores e atravessa território do lince-ibérico. Contestam ainda o método do estudo de impacte e apontam um possível conflito de interesses entre a associação promotora e a nova empresa pública da água.

Os resíduos confrontam a realidade

Os dados nacionais mostram um aumento dos resíduos e uma dependência dos aterros muito acima da meta. Os incumprimentos em Moita-Palmela revelam as consequências, enquanto o serviço porta a porta de recolha de resíduos alimentares previsto pela Moita constitui uma tentativa local concreta de separar a matéria orgânica.

Resíduos urbanos voltam a subir em 2025 e 55% acabam em aterro

Portugal produziu 5,7 milhões de toneladas de resíduos urbanos em 2025, cerca de 509 quilos por habitante, mais 2% do que no ano anterior, que já tinha registado uma subida de quase 4%. A Agência Portuguesa do Ambiente fala em progressos limitados e em metas nacionais e europeias ainda longe de ser cumpridas. A recolha seletiva representa apenas 24% do total, 55% segue para aterro, face a uma meta de 10%, e só 14% é reciclado. Os biorresíduos pesam mais de um terço do lixo indiferenciado. A APA defende mais prevenção, melhor recolha seletiva e o modelo de pagamento pelo volume produzido.

CCDR confirma incumprimentos da Amarsul no aterro de Moita-Palmela após denúncias da ZERO

A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo informou a ZERO, por ofício, de que foram detetadas ilegalidades no aterro da Amarsul em Moita-Palmela, entre as quais o incumprimento das condições da licença e do regime jurídico da deposição de resíduos em aterro, tendo sido acionados os procedimentos legais. Para a associação, o cerne do problema é a deposição de resíduos orgânicos não estabilizados, proibida desde 2020. Defende o redimensionamento da unidade de tratamento mecânico e biológico, o alargamento da recolha porta-a-porta de biorresíduos e a adoção do tarifário PAYT. Segundo a Agência Portuguesa do Ambiente, em 2024 a Amarsul enviou 75% dos resíduos urbanos para aterro, incluindo 112 mil toneladas sem qualquer tratamento.

Moita abre concurso de 837 mil euros para recolha de biorresíduos porta-a-porta

A Câmara Municipal da Moita lançou um concurso público de 837.345 euros para assegurar, durante dois anos, a recolha porta-a-porta de biorresíduos. O serviço vai abranger cerca de 1.550 pontos de recolha, domésticos e não domésticos: cada um dos três circuitos domésticos serve cerca de 450 pontos, e o circuito não doméstico cerca de 200, entre os quais 32 cantinas escolares. As viaturas terão de ter geolocalização, para que a autarquia acompanhe os percursos em tempo real. Os resíduos seguem para o Ecoparque de Palmela, gerido pela Amarsul; a empresa contratada pesa o que recolhe, mas é o município que paga a deposição. As candidaturas decorrem até 11 de novembro.

Planear para além do presente

As reservas de sementes, o pastoreio gerido por GPS e os ensaios com solos no Alentejo preparam respostas para riscos que se desenvolvem ao longo de anos. O trabalho vai de uma coleção no Ártico a projetos de campo que decorrem até 2028, ligando a conservação à gestão agrícola prática.

Portugal envia mais 334 amostras de sementes para o cofre de Svalbard

O Secretário de Estado da Agricultura, João Moura, participa a 13 de outubro na cerimónia de depósito de sementes no Cofre Global de Sementes de Svalbard, na Noruega. Portugal junta 334 acessos: 303 de feijão-comum, 18 de feijão-frade e 13 de milho. É a quinta entrega desde 2018 e eleva para 1.861 o total de acessos guardados como cópias de segurança no Ártico. As sementes provêm do banco de germoplasma nacional, gerido pelo INIAV, que também integra uma experiência de longevidade de sementes com a duração de um século. Desde 2023, Portugal tem ainda lugar no conselho consultivo do cofre.

Montalegre lança teste de coleiras GPS para pôr o gado a prevenir incêndios

O GEXPOCTEP, projeto de cooperação entre Portugal e Espanha, vai testar cerca de 100 coleiras GPS associadas a cercas virtuais, que permitem aos produtores monitorizar e gerir o gado à distância na pastorícia extensiva de montanha. Apresentado em Montalegre, a 8 de outubro, perante mais de 70 participantes, quer reduzir o risco de incêndio através do pastoreio como gestão do combustível vegetal, valorizar raças autóctones como a Cachena, a Barrosã, o Garrano e a Galega e fixar população nos territórios rurais. Estão ainda previstos drones e sensores de monitorização. Financiado pelo Interreg Espanha-Portugal, decorre até ao fim de 2028, com mais de 2,26 milhões de euros e dez parceiros.

Politécnica de Portalegre lança projeto para regenerar solos agrícolas do Alentejo com culturas de cobertura e gémeo digital

A Universidade Politécnica de Portalegre desenvolve o projeto coverPLUS, que pretende melhorar a fertilidade dos solos agrícolas do Alentejo e promover um uso mais eficiente dos recursos. Coordenado por Luís Alcino da Conceição, decorre até agosto de 2028. Prevê culturas de cobertura e fertilização orgânica, para aumentar a matéria orgânica e ajudar o solo a reter água e nutrientes, e um modelo tridimensional de previsão da produção de forragens, assente no conceito de gémeo digital. Os agricultores terão formação prática e acompanhamento técnico para adotar ferramentas digitais. O investimento elegível é de 49.025,70 euros, com 85% financiados pelo FEDER através do programa Alentejo 2030.

O mapa continua a preencher-se. Esta semana acrescentámos 12 projetos e 110 eventos. A Sustainable Living liga agora 475 projetos, 226 eventos próximos e 983 pessoas em Portugal.

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