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A semana no Pulso · 14–20 de setembro de 2026

Quem beneficia quando Portugal transforma o território e as ruas?

O risco de incêndio, o desenvolvimento da energia solar e a segurança dos transportes levantaram esta semana a mesma questão: quem tem voz nas mudanças em Portugal? As comunidades contestaram os usos do solo e os custos locais, enquanto as respostas e propostas passaram pela plantação de espécies autóctones, terrenos agrícolas partilhados e autocarros elétricos. Os pormenores diferem, mas a participação e os benefícios locais estão no centro de cada debate.

7 edições diárias · 153 histórias · 7 regiões

O que marcou a semana

A menor atividade dos incêndios este ano não encerrou o debate sobre a prevenção. Até ao final de agosto, 6.910 incêndios rurais tinham ardido 67.130 hectares. Em Águeda, dezenas de pessoas protestaram contra plantações abandonadas de eucalipto e pinheiro, defendendo simultaneamente a replantação de espécies autóctones. No Fundão, a Associação Projeto Milagre está a financiar coletivamente a compra de 11 hectares ardidos para criar um espaço permanente de recuperação. Entretanto, sete municípios do Minho receberam maquinaria para a gestão de combustível. A expansão da energia solar está a expor uma questão semelhante sobre a utilização do solo e quem dela beneficia. A BP Lightsource reduziu a central Sophia que tinha proposto, após avaliações ambientais e protestos locais, e abandonou o projeto Beira, com ela relacionado. No Baixo Alentejo, 2.742 hectares distribuídos por oito municípios foram designados como zonas de aceleração das energias renováveis. O presidente da Câmara de Ourique apoia o desenvolvimento da energia solar, mas pretende compensações, uma tributação mais justa da propriedade e maior proteção dos terrenos agrícolas, da paisagem e da biodiversidade. A agrovoltaica oferece uma possível solução de compromisso, desde que a agricultura continue a ser o principal uso do solo. A política de transportes mostra mudanças a duas escalas distintas. A STCP colocou ao serviço 30 novos autocarros elétricos na área do Porto, elevando a sua frota elétrica para 126 veículos e cerca de 28% da operação. Ponta Delgada pretende tornar o seu Minibus gratuito para todos os residentes, mas a concessão proposta para o período entre 2027 e 2037, no valor de mais de 20 milhões de euros, ainda precisa da aprovação da Assembleia Municipal. A nível nacional, a MUBi propôs um limite urbano geral de 30 km/h e proteções mais claras para quem se desloca a pé ou de bicicleta. Em conjunto, estas histórias mostram que infraestruturas menos poluentes são apenas uma parte da tarefa. As regras, o escrutínio público e o acesso determinam a forma como a mudança é vivida localmente.

As histórias da semana

Repensar a prevenção de incêndios

A prevenção de incêndios rurais está a avançar através do protesto, da gestão responsável do território e do investimento público. Em Águeda, os manifestantes querem substituir plantações abandonadas que representam um risco, um grupo do Fundão espera adquirir terrenos ardidos para os recuperar e os municípios do Minho receberam maquinaria para gerir o combustível.

Dezenas de pessoas protestam em Águeda contra risco de incêndio dos eucaliptais

Dezenas de pessoas reuniram-se em Águeda, no distrito de Aveiro, para protestar contra os incêndios florestais e exigir a remoção de eucaliptais e pinhais abandonados, considerados por ativistas um risco para todo o país. A iniciativa, organizada pela Quercus com o movimento Floresta do Futuro e a ADPLP, destacou esforços comunitários de plantação de espécies autóctones. O porta-voz João Camargo defendeu que as florestas autóctones ardem mais devagar e são mais fáceis de controlar, alertando que a menor incidência de incêndios este ano se deveu ao acaso e não a menor risco. Dados oficiais apontam 6.910 incêndios rurais e 67.130 hectares ardidos até final de agosto de 2026.

Campanha de financiamento coletivo quer comprar terreno ardido no Fundão

A Associação Projeto Milagre lançou uma campanha de financiamento coletivo para comprar 11 hectares no Fundão totalmente consumidos pelos incêndios de 2025, com o objetivo de retirar o terreno do circuito de especulação imobiliária. A ideia é transferi-lo posteriormente para uma fundação, garantindo que nunca mais é vendido e que fica destinado exclusivamente a fins regenerativos, com agroflorestas, hortas, lagos e corredores ecológicos. Até agora, 56 pessoas financiaram o equivalente a 4,6 dos 15,5 campos de futebol que compõem a área. A campanha decorre até 12 de outubro, integrando uma estratégia mais ampla de resposta a incêndios, secas e inundações.

Sete municípios do Minho recebem tratores para prevenção de incêndios

Sete municípios do Minho receberam novos tratores e equipamentos agrícolas para reforçar a gestão de combustível e a prevenção de incêndios rurais. A entrega decorreu em Amares, numa cerimónia presidida pelo ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, e pelo secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira. A iniciativa insere-se no Programa de Mecanização para a Gestão de Combustível, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que no total canaliza 80 milhões de euros para esta medida.

Partilhar os benefícios da energia solar

A ocupação do território pela energia solar está sujeita a maior escrutínio local. Um promotor reduziu um dos projetos, o presidente de uma câmara do Alentejo quer que as comunidades de acolhimento partilhem os benefícios e a agrovoltaica é apresentada como uma forma de manter a agricultura no centro.

BP Lightsource reduz central solar Sophia após oposição local

A BP Lightsource reformulou o projeto da central solar Sophia, reduzindo a área e a potência da instalação, depois de avaliações ambientais desfavoráveis e protestos das populações locais. A empresa afirma ter ouvido atentamente as preocupações das comunidades vizinhas e ajustado os planos em consequência. No âmbito desta revisão, a promotora decidiu abandonar um projeto relacionado, a central solar da Beira. O caso ilustra as tensões crescentes em Portugal entre a expansão das energias renováveis e a aceitação local, com promotores cada vez mais obrigados a reduzir propostas para obter aprovação ambiental e apoio público.

Presidente da Câmara de Ourique exige retorno local do boom solar no Alentejo

O novo Programa Setorial das Zonas de Aceleração das Energias Renováveis (PSZAER) identificou 2.742 hectares em oito concelhos do Baixo Alentejo para acelerar o licenciamento de centrais solares, com Almodôvar a liderar a área destinada, seguido de Ourique e Beja. O presidente da Câmara de Ourique, Marcelo Guerreiro, defende o aproveitamento do potencial solar da região, mas alerta que o território não pode ficar apenas com os impactos enquanto a riqueza gerada beneficia outras regiões. O autarca pede mecanismos de compensação territorial, fiscalidade justa, planeamento integrado das redes elétricas e mais linhas subterrâneas, salvaguardando agricultura, paisagem e biodiversidade.

Agrivoltaico apresentado como forma de combinar agricultura e energia solar

Com o aumento da pressão sobre o uso do solo, a disponibilidade de água e a transição energética, o agrivoltaico surge como uma solução que combina produção agrícola e produção de energia renovável na mesma superfície. Esta abordagem permite que painéis solares e culturas ou animais partilhem o mesmo espaço, procurando um uso mais eficiente de um solo cada vez mais escasso. Um princípio central defendido é que a agricultura deve continuar a ser a utilização principal do terreno, com a produção de energia a assumir um papel complementar em vez de substituir a atividade agrícola.

Mudar as deslocações quotidianas

Os transportes públicos estão a receber veículos elétricos e poderão tornar-se gratuitos para os residentes de Ponta Delgada. Ao mesmo tempo, a MUBi pede aos responsáveis pelas regras nacionais que tornem as ruas urbanas mais lentas e claras para quem se desloca a pé ou de bicicleta.

STCP soma 30 autocarros elétricos e frota chega aos 126

A STCP iniciou esta quinta-feira a operação de 30 novos autocarros 100% elétricos, num investimento de cerca de 12 milhões de euros, dos quais 7 milhões vieram do Plano de Recuperação e Resiliência e 5 milhões dos municípios acionistas. Com esta integração, a frota elétrica da empresa passa a ter 126 veículos, o que faz com que cerca de 28% da operação seja já assegurada por meios livres de emissões. Fabricados pela Caetano Bus, com autonomia de cerca de 320 quilómetros, os novos autocarros ficam sediados na Estação de Recolha da Via Norte e substituem viaturas em final de vida útil, servindo Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Maia, Valongo e Gondomar.

Associação propõe limite de 30 km/h nas localidades para o Código da Estrada

A MUBi apresentou ao Ministério da Administração Interna um conjunto de propostas para a revisão em curso do Código da Estrada e do Regulamento de Sinalização do Trânsito. Entre as medidas destacam-se a fixação de 30 km/h como limite geral de velocidade nas localidades, a manutenção dos 20 km/h nas zonas de coexistência, a criação de uma categoria própria para veículos de mobilidade pessoal e regras mais claras para bicicletas, como circular lado a lado ou em contramão em ruas de sentido único. A associação pede ainda maior proteção nas passadeiras e o fim da sinalização que permite estacionar em cima dos passeios. A MUBi defende que a reforma não deve limitar-se ao agravamento das multas e reclama a participação da sociedade civil no processo.

Ponta Delgada quer tornar Minibus gratuito para todos os residentes

A Câmara Municipal de Ponta Delgada quer tornar o serviço de Minibus gratuito para todos os residentes do concelho ainda neste mandato, anunciou o presidente Pedro Nascimento Cabral. Entre agosto de 2024 e agosto de 2026 foram registadas mais de 1,8 milhões de viagens na rede, quase um terço através dos passes gratuitos já existentes para estudantes e pessoas com 65 ou mais anos. Em paralelo, a Câmara aprovou, com voto contra do PDLPT e do Chega, uma proposta para preparar um novo concurso público internacional para a concessão do transporte coletivo urbano, envolvendo um compromisso plurianual superior a 20 milhões de euros entre 2027 e 2037, que ainda carece de autorização da Assembleia Municipal.

O mapa continua a preencher-se. Esta semana acrescentámos 12 projetos e 101 eventos. A Sustainable Living liga agora 426 projetos, 254 eventos próximos e 861 pessoas em Portugal.

Novos projetos esta semana

Na nossa agenda

set24
Apresentação dos resultados do projeto agrivoltaico e prova do vinho "Luz da Tapada"

Apresentação dos resultados do projeto agrivoltaico e prova do vinho "Luz da Tapada"

Visita guiada

Instituto Superior de Agronomia · Lisboa · Lisboa

Sessão de apresentação dos resultados do primeiro projeto agrivoltaico em vinha em Portugal, desenvolvido pela Galp e pelo ISA na Tapada da Ajuda. A iniciativa combinou painéis solares com a vinha para avaliar estratégias de adaptação às alterações climáticas e reduzir a evaporação de água, gerando a primeira colheita de vinho «Luz da Tapada» nessas condições.

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